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21/06/2012

Entrevista com José Ruy


José Ruy (foto do Blog do Centro Artístico e Cultural Artur Bual)
"Não fico à espera de convites.
Faço."







O álbum “Leonardo Coimbra e os Livros Infinitos”, de José Ruy, é hoje apresentado na Casa da Cultura Leonardo Coimbra, na Lixa, às 17 horas, com a presença do autor, num evento integrado nas comemorações do 17º aniversário da elevação a cidade daquela localidade.
A obra, teve o apoio da Câmara Municipal de Felgueiras, terra natal do filósofo, que adquiriu uma parte da edição de modo a garantir que todas as Escolas e Bibliotecas do Concelho tenham exemplares.

Este foi o pretexto para uma conversa à distância (por mail) com José Ruy, centrada especialmente na sua relação com as autarquias e o seu método de trabalho. Nesta conversa também foram abordados o álbum agora apresentado e o que se vai seguir - “Carolina Beatriz Ângelo, Pioneira na Cirurgia e no Voto” - do qual As Leituras do Pedro apresentam a capa e algumas pranchas, em estreia absoluta, o que constitui mais um motivo de agradecimento a José Ruy. 



As Leituras do Pedro - Há muito que o José Ruy trabalha com o apoio de autarquias portuguesas. Sem querer entrar no “segredo do negócio”, como funcionam normalmente essas parcerias? De quem costuma partir a iniciativa, de si ou da autarquia?
José Ruy – Praticamente comecei a fazer histórias relacionadas com Autarquias, com a “História de Macau”, depois de regressado desse território chinês sob administração portuguesa, e por sugestão da delegada em Lisboa, Dr.ª Amélia Dias. Mas não teve qualquer comparticipação da Autarquia; As Edições ASA colocaram os livros directamente à venda no território em livrarias previamente indicadas. As iniciativas para realizar estas obras têm partido de mim, de professores, de autarcas e de editores. Mas nunca realizei Histórias em Quadrinhos directamente para nenhuma Autarquia, como tem acontecido com colegas meus.
Só trabalho com editores, e são estes que por sua vez contactam e contratam com algum promotor, que pode ser realmente uma Autarquia, um instituto, um museu ou uma fundação.


ALP - É fácil chegar a acordo com essas instituições em termos de valores envolvidos, prazos, condições de impressão/distribuição, liberdade criativa, etc.?
JR - Esta sua pergunta está em parte já respondida, mas explicarei melhor: Quando o editor decide publicar a obra, (apresentada sempre por mim), devido ao meu processo de trabalho, não se levantam os problemas a que faz alusão. A importância dos apoios para o editor, é de ter à partida a garantia (de palavra) de uma quantidade de livros a serem adquiridos depois de impressos, e só depois dessa altura pagos. Naturalmente que faz diferença uma edição ser projectada para cinco mil exemplares, se puder atingir os dez mil. Quanto mais elevada é a tiragem mais embaratece o preço unitário. Assim o promotor adquirirá um produto mais em conta, e o editor também beneficiará disso.
Nunca tive intromissão de qualquer espécie no que faço, pois o método que uso e que todos sabem, é o seguinte:
Logo a seguir a criar o argumento, elaboro toda uma planificação desenhada da história, embora em rascunho, incluindo as legendas; depois apresento ao editor e ao promotor, para análise. Sobre esse esboço são trocadas impressões, acrescentes ou modificações, como um trabalho de equipa; mas uma vez aprovada essa fase, não haverá qualquer modificação de última hora. Foi assim que trabalhei na ASA, e apesar de fazer parte dos quadros efectivos, consegui disciplinar os dirigentes quanto a um velho hábito de “põe e tira” já quase com o livro em máquina. Quando me convidaram para a empresa, sabiam já que só aceitaria nessas condições. Portanto a liberdade criativa é total, pois o que se discute por vezes são pequenos pormenores pontuais.

Leonardo Coimbra e os Livros Infinitos

ALP - Chega a ter diversas propostas pendentes, ou trabalha um tema de cada vez?
JR - Por norma trabalho sempre com vários projectos encadeados, uns sugeridos, outros de minha iniciativa; durante a arte final de uma obra, estou já a trabalhar no argumento e a reunir material para uma outra, enquanto faço a pesquisa para uma terceira ou quarta HQ.
A pesquisa ocupa muitas vezes muito mais tempo do que a realização do livro. Só “arranco” em definitivo quando tenho todos esses elementos na mão.


ALP - Depois de estabelecido o acordo, qual o seu método de trabalho?
JR - Acontece que não dependo de qualquer “acordo económico” para iniciar o trabalho. Ninguém irá apostar em adquirir livros para colocar em escolas ou bibliotecas, se não ler e ver primeiro a história. Naturalmente que o acabamento final, já pode ser antevisto pelo exemplo das obras por mim realizadas. O autor tem de investir para ver resultados, não pode estar à espera de saber quanto vai receber, para depois meter mãos à obra. É esta a minha filosofia.

Carolina Beatriz Ângelo

ALP - Uma vez o trabalho finalizado, costuma receber críticas das entidades envolvidas ou mesmo pedidos de alterações? Como reage?
JR - Devido ao processo de trabalho que descrevi, esta situação nunca se põe.


ALP - Sem estas parcerias com as câmaras, o José Ruy ainda era autor de BD?
JR - Claro que não dependo de apoios externos para editar as minhas HQs. Pode o editor apostar numa tiragem mais reduzida, mas edita sempre. Dou-lhe um exemplo: o livro “Aristides de Sousa Mendes, Herói do Holocausto”, não teve apoios, e no entanto está em segunda edição. A editora do Museu Yad Vashem de Jerusalém fez um contrato comigo para a edição em hebraico que está à venda em Israel.
Não fico à espera de convites. Faço.


ALP - Estes acordos com as autarquias ou outras instituições significam a compra de que parte da edição?
JR - Essa proporção das tiragens depende. No caso de “A Jóia no Vale!” foi de quatro para a Autarquia e dois para a editora, pois nestes casos o livro é distribuído pelas escolas e bibliotecas e o tema é trabalhado nas aulas, onde vou algumas vezes colaborar. Mas em Os Lusíadas em HQ, já no adiantado da publicação em muitas edições, a Câmara de Almada adquiriu uma proporção de 1 para 8, portanto uma pequena parte da edição da altura.
Carolina Beatriz Ângelo
Em Sintra, a Autarquia adquiriu um terço da tiragem em português, e quase a totalidade das edições em espanhol, francês e inglês, pois estava mais direccionada para a colocação destas versões nos postos de turismo da Vila. Em “O Juiz do Soajo” uma parceria da Junta de Freguesia do Soajo, a Câmara de Arcos de Valdevez e o Parque Nacional da Peneda Geres adquiriram dois terços, e também quase a totalidade das versões em francês e inglês.
O “Pêro da Covilhã”, de que na primeira edição a Região de Turismo da Serra da Estrela adquirira metade, na segunda edição já só a Câmara da Covilhã adquiriu uma pequena parte. “Amarante e a Heroica Defesa da Ponte” foi meio por meio.
Neste caso recente do “Leonardo Coimbra”, a Autarquia adquiriu 4000 exemplares de seis mil da tiragem.
A Âncora (que tenho acompanhado mais de perto nos últimos anos) nas suas edições de HQ não se limita a editar livros para fornecer a promotores; tem editado, obras minhas e de colegas como o José Pires, o João Amaral e o Baptista Mendes (que tem um livro a sair muito brevemente nessa editora), os que nos temos mantido mais activos na editora, com mais ou menos tiragem, mas nunca deixando de o fazer quando não há apoios. Há sempre o apoio do público. Mas se aparecer alguma aquisição extra, tanto melhor, engrossa a tiragem.


Carolina Beatriz Ângelo
ALP - No caso da biografia do Leonardo de Coimbra, de quem partiu a iniciativa?
JR - A sugestão para o livro “Leonardo Coimbra e os Livros Infinitos”, nasceu numa reunião com a presença do meu actual editor, em Felgueiras, aquando de uma das minhas intervenções na Biblioteca Municipal, pela então Presidente da Câmara Dr.ª Fátima Felgueiras. Foi um desafio a que apliquei todo o meu empenho, pois cada novo livro representa para mim uma importância especial pelo respeito e consideração que tenho pelo público a que se destina.


ALP - Quais foram as maiores dificuldades com que se deparou para criar esta obra?
JR - A grande dificuldade inicial que enfrentei nesta obra, foi tornar apelativo aos escalões etários alvos, o argumento. Como sabe, em todas as minhas HQ não me limito a alinhar os documentos históricos ilustrando-os a seco. Concebo um pequeno enredo romanceado, através do qual o leitor se vai apercebendo, às vezes sem dar por isso, da parte histórica que precisamos de contar. Neste caso, como tratar este assunto tão fechado para uma grande parte do nosso público das HQs, tornando-o acessível, e conseguindo que as páginas fossem viradas uma a uma até à final, sem saltarem por cima? E no entanto tinha de ser compreensível tanto para as crianças e jovens, como para o leitor adulto e já conhecedor da personagem. E segundo parece, pela própria opinião do Pedro Cleto, consegui. Haverá sempre um anão desconhecido que discorde e deite abaixo. Quem não se quer expor a franco atiradores, não pode sair da linha defensiva da trincheira. Eu arrisco.


ALP - Está satisfeito com o resultado?
JR - Para lhe ser franco, nunca estou satisfeito, pois no final penso que poderia ter feito melhor, ou diferente; mas terei de tentar no trabalho seguinte, porque o terminado já pertence ao editor e terá de seguir os seus trâmites. No fundo, quem importa que fique realmente satisfeito é o público. É ele que permite que possamos fazer um próximo livro.


ALP - Sei que já tem um novo álbum pronto para sair em Setembro. Qual o seu título e tema?
JR - O livro que tenho pronto desde finais de 2011, chama-se: “Carolina Beatriz Ângelo, Pioneira na Cirurgia e no Voto”. É quanto a mim, um contraponto ao Leonardo Coimbra. Trata-se de uma notável figura da mesma época, que se cruzou com Leonardo numa outra luta, bem mais difícil, pela sua condição feminina. Uma vencedora. Tenho a obra pronta em DVD e no entanto não temos nenhum apoio definido.
A sua publicação depende neste momento de se conseguir uma tiragem mais confortável, de resto como a figura merece, e que o editor está a ponderar atentamente.


José Ruy (foto do Blog do Centro Artístico e Cultural Artur Bual)

7 comentários:

  1. Das pessoas mais simpáticas que tive o prazer de conhecer. Uma verdadeira lenda viva. :)

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  2. O José Ruy é um senhor da BD. Como pessoa e como autor. Excelente entrevista Pedro. Abraço

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    1. Caros Diogo e Verbal,
      Susbcrevo as vossas palavras.
      Conheço o José Ruy há mais de 25 anos e sempre se destacou pela sua amabilidade, disponibilidade e simpatia.
      E que mais uma vez manifestou na resposta a esta entrevista, concretizada em 2 dias...
      Boas leituras!

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  3. Em outro blogue congénere, tive oportunidade de dizer que simpatizo com o José Ruy e admiro a sua obra. Sou seu fã incondicional.
    No entanto, cabe-me aqui salientar uma parte do que ele disse - "Mas nunca realizei Histórias em Quadrinhos directamente para nenhuma Autarquia, como tem acontecido com colegas meus."
    Ora, isto toca-me. Primeiro, porque já fiz trabalhos directamente para autarquias e fiz também trabalhos através de editor. De qualquer forma, o trabalho é sempre resultado do interesse do município; apenas diverge a forma de pagamento e do tratamento fiscal do mesmo: ou a recibo verde ou, como editor, através de venda ou prestação de serviço.
    Uma coisa é certa: havendo autarquias pelo meio, não há preocupações na venda. Muitas edições esgotam porque as autarquias fazem delas o que entenderem.
    Dos 7 trabalhos que realizei em álbum para autarquias, 3 foram através de editor. Os outros surgiram por convites da autarquia ou propostas feitas a estas. Também posso dizer que não me prestei a fazer um, que foi então elaborado por Artur Correia (e bem melhor do que eu faria).
    O facto de o autor ser editor é um duplo risco, mesmo que haja autarquias pelo meio; nem sempre estas pagam a tempo e horas e podem não pagar (o que não é o meu caso). Por isso, não me levem a mal, mas um autor publica conforme pode, sem se dar ao luxo de quem é quem ou se há chancela ou não.

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  4. Meu caro Santos Costa, agradeço as palavras simpáticas ao meu trabalho. Quanto ao que afirmei nesta entrevista sobre «obras apoiadas por Autarquias», não interprete mal o meu depoimento. Normalmente os livros editados por Autarquias não têm distribuição para além das fronteiras do Concelho, e ficam limitados aos postos e turismo ou balcões das Câmaras. Por isso eu prefiro que os meus trabalhos sejam todos publicados por editoras. Vou dar exemplos: Os meus colegas e amigos Artur Correia, José Garcês, Eugénio Silva e Pedro Massano, que têm trabalhado diretamente para Câmaras Municipais, não têm à venda essas suas obras nas livrarias. Quando fui ao lançamento do segundo volume da «História de Lisboa» de Pedro Massano, na FNAC do Chiado, editada pelo Montepio, interessei-me em adquirir o primeiro, lançado algum tempo atrás num Festival BD da Amadora; disse-me o próprio representante da instituição que já não havia exemplares, pois tinham sido retirados do armazém,(sem terem sido distribuídos) para criar espaço. Foram vendidos a peso para reciclagem do papel. Quando faço uma obra é para ser divulgada, e não fico satisfeito apenas por receber uma remuneração sabendo que o livro pode ficar embalsamado num armazém. Este é o meu ponto de vista.
    Um forte abraço
    José Ruy

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    1. De pleno acordo, Mestre José Ruy.
      Já me aconteceu querer oferecer álbuns a alguns amigos e as edições estarem "esgotadas". Vendidas? Não, dadas. No entanto, se forem dadas, alguém que as recebe, quer lê-las. Isso já é bom.
      No meu caso, do que editei directamente ou através de editor, não tenho conhecimento que tenha sido vendido a peso; mas creio que haverá, infelizmente, casos desses.
      Concordo também consigo sobre o espaço reduzido de distribuição das Autarquias: cinge-se muito simplesmente à área concelhia.
      Prefiro, de facto, que a obra circule de Norte a Sul, mas nem sempre é possível. Relativamente às Autarquias, há-as para todas sensibilidades; a de Lamego, por exemplo, sei que fez uma tiragem de seis mil exemplares (não sei se fez uma segunda) e a obra, que era sobre uma figura local (d. Egas Moniz) foi distribuídas nas escolas - isto deixa-me feliz.
      Como tive oportunidade de dizer em outro blogue, aqui há uns anos tive o privilégio de estar num jantar em homenagem do Garcês, a seu lado. Nunca encontrei um Autor e um Mestre com tanta simpatia e simplicidade como o José Ruy. Talvez nestes e noutros atributos - que são reconhecidos por todos nós - esteja também a elevação da sua arte e o espírito jovem e empreendedor que lhe reconhecemos.
      Um grande abraço e o meu Bem-haja pela magnífica obra que tem elaborado e de que eu possuo grande parte.

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    2. Caros Santos Costa e José Ruy,
      Agradeço a participação de ambos comentando esta mensagem e a partilha de experiências que enriquecem este espaço e ajudam a compreender melhor alguns dos meandros da banda desenhada portuguesa.
      Confesso que desconhecia a dimensão (tiragens) que atingem algumas das obras patrocinadas pelas autarquias, que se transformam assim em autênticos best-sellers no panorama da BD nacional.
      Claro está que lamento que, muitas delas, nunca cheguem ao grande público nem sequer a muitos daqueles que são fãs de BD, devido à distribuição localizada que as autarquias promovem, mas é evidente que o papel destas é outro...
      Boas leituras... de autores portugueses!

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