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22/05/2012

Diário Rasgado






Marco Mendes
Mundo Fantasma/Associação Turbina/A Mula (Portugal, Maio de 2012)
210 x 280 mm, 84 p., pb e cor, cartonado
15,90 €



Este álbum, desde já uma das (boas) surpresas editoriais do ano - pelo conteúdo e pela bela edição - é uma recolha de bandas desenhadas, geralmente de uma única página – embora pontualmente haja sequência entre algumas delas - publicadas pela primeira vez no blog do autor com o mesmo nome e, nalguns casos, em fanzines nacionais e estrangeiros, entre os quais se conta “Tomorrow the chinese will delivery the pandas”, da responsabilidade do próprio autor, que nasceu em 1978 na Figueira da Foz e vive actualmente no Porto – reconhecível em boa parte destas pranchas -, onde foi fundador do Clube do Desenho e do colectivo artístico e editorial “A Mula”.

Verdadeiro diário gráfico, de tom assumidamente autobiográfico como entre nós raramente foi praticado, nele Marco Mendes expõe – e se expõe – apontamentos diversos do seu quotidiano, referentes aos seus amigos, à sua namorada, aos seus anseios, êxitos e (algumas) frustrações, de uma forma crua e directa que, por vezes, choca – embora não gratuitamente - pela forma como se despoja (e se expõe…) totalmente.
Pontualmente revestidos de um sentido de humor desencantado, estes apontamentos, ricos, nervosos, urgentes por vezes, outras convidando à contemplação e/ou à reflexão, pelo que revelam mas também pelo que deixam entrever, tipificam igualmente uma certa forma de vida e algumas das opções (ou da falta delas?), reveladoras de um tempo – que é o hoje, no qual esta obra surge bem ancorada.

Graficamente, é notória a evolução ao longo do período (2007-2001) que o álbum abarca e também a experimentação – de novas técnicas e materiais - que move o autor (como pode ser comprovado pelos originais patentes na galeria Mundo fantasma, no Porto, até 10 de Junho), desde as primeiras pranchas, traçadas a esferográfica, em traço directo (ou quase), de forma rude e imediata, até à belíssima capa ou às pranchas mais recentes, mais trabalhadas, com um traço apurado, fruto de múltiplas passagens em papel vegetal, sempre em busca da linha, da pose, do ponto de vista ideais, coloridas ou servidas com belo trabalho de cinzentos e sombreados, que mostram um autor muito dotado, à vontade no tratamento do corpo humano – auxiliado pela sua prática enquanto professor de desenho, ilustrador e artista plástico? - e na sua integração nos cenários, de tal forma competente que chega por vezes a transmitir a ideia – falsa – de que trabalha sobre base fotográfica.
E muito atento, também, aos pequenos gestos do quotidiano, como é detectável em pormenores – intrínsecos à obra, ao meio, aos ambientes, não artificiais ou provocados – disso reveladores, como a mão que segura um cigarro, a posição em que (se) desenha, o abraço de um casal na cama, a forma como um pé se apoia numa beira… que potenciam o realismo do traço e credibilizam a autenticidade do que M. Mendes nos vai contando.



8 comentários:

  1. Belíssima apresentação, Pedro. Eu não conhecia o trabalho do Marco Mendes, que muito me impressionou pela personalidade e apuro técnico.

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    1. Caro Jo Fevereiro,
      Bem-vindo às minhas leituras!
      Vale bem a pena descobrir o trabalho do Marco Mendes e não só pelas suas inegáveis capacidades gráficas, mas também pela forma atenta como ele retrata o seu quotidiano.
      Boas leituras!

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  2. Caro Pedro Cleto,
    Fico agradecido pela boa acolhida, mas confesso que tenho frequentado sorrateiramente estas saborosas leituras com certa regularidade. Quando referi-me à "personalidade" no trabalho do Marco Mendes, estava a juntar a qualidade gráfica com o despojamento com que ele se expõe. Isso é o que considero mais raro e valioso numa obra autobiográfica, pelas quais tenho grande apreço. Cito duas, que foram editadas recentemente no Brasil: "Memória de Elefante" do Caeto pela Companhia das Letras, e "Morro da Favela" do André Diniz pela LeYa/Brasil. Se ainda não leu, são altamente recomendáveis.
    Boas leituras!

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    1. Caro Jo,
      Fico satisfeito por encontrar (algum) agrado nestas (minhas) leituras.
      Não sendo fã confesso do género autobiográfico de uma forma geral, há autores que não resisto a acompanhar e o Marco Mendes é um deles.
      Não conheço nenhuma das obras que citou, nem é fácil arranjar esse tipo de edições em Portugal, mas se tiver oportunidade, pode ter a certeza que vou seguir a sua indicação!
      Boas leituras!

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  3. Pedro e Jo, dois gigantes dos Quadrinhos, um pelo conhecimento, o outro pela arte, e eu aqui no cantinho, a escutar!

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    1. ;)!
      Boas leituras... e boas escutas!

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  4. Obrigado, Pedro! Fico muito contente por gostares do livro! Abraço!

    Marco

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    1. Olá Marco!
      Bem-vindo por aqui.
      Gostei do teu livro, sim, e sstou já à espera do próximo! ;)
      Boas leituras!

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