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17/02/2012

Níquel Náusea










Um tigre, dois tigres, três tigres
A vaca foi pró brejo atrás do carro na frente dos bois
Fernando Gonsales
Devir (Brasil, Novembro de 2009 /Agosto de 2010)
210 x 280 mm, 48 p., cor, cartonado
R$ 24,00, 12,99 € / R$ 26,00, 12,99 €



Resumo
Mais duas colectâneas com as tiras do rato Níquel Náusea e os seus amigos: a rata Gatinha. O rato Ruter, o Sábio do Buraco, a barata Fliti e muitos outros animais… como nós!

Desenvolvimento
Criado em 1985, o rato Níquel Náusea, evocação de sarjeta de um certo astro Disney com nome foneticamente parecido, é já uma verdadeira instituição nos quadradinhos brasileiros, o que de forma alguma diminui o interesse ou o humor desta criação do também veterinário – pelas tiras apostaria mais em médico… - Fernando Gonsales.
Porque, se aparentemente em Níquel Náusea há uma viagem profunda ao maravilhoso mundo animal, um olhar atento - que não precisa de ser de lince – revela nele bem mais sobre o (nada) maravilhoso mundo humano.
Passo a explicar: se os protagonistas destas tiras de jornal são ratos, pulgas, crocodilos, cães, borboletas e outros animais – embora a par de seres humanos e de mitos e referências culturais como personagens de BD e de contos infantis ou o Pai Natal - as suas acções e atitudes traduzem sentimentos e comportamentos (poucas vezes nobres…) bem mais próprios dos humanos, embora distorcidos e deformados pelo nonsense e o olhar mordaz que Gonsales emprega em cada situação, obrigando-nos, assim, a sorrirmos ou rirmos mesmo abertamente – também de nós próprios - com os poucos quadradinhos com que compõe cada um destes gags, de desenho simples, mas vivo, expressivo e muito eficaz.
Por isso, não se surpreendam quando encontrarem em Níquel Náusea elefantes vítimas de bullying, borboletas com patrocínio nas asas, caracóis que tocam às campainhas e fogem, papagaios falantes estrelas do cinema mudo, peixes que vivem em lagos que são miragens no deserto, reflexões sobre a reprodução de micro crustáceos como estimulante sexual, avozinhas toureiras – é incrível como as consequências da senilidade (fraca audição, visão, locomoção…) podem originar tantas piadas, saudáveis (!) e politicamente incorrectas – os inconvenientes de levar um bode para a cama do casal, provas da existência do Pai Natal, Batman à volta com as seguradoras ou novas (e inventivas) versões da corrida entre a lebre e a tartaruga e da história do Capuchinho Vermelho, de histórias de vampiros e de extraterrestres ou de situações tão banais como uma galinha pôr um ovo ou (não) atravessar para o outro lado da estrada…

A reter
- O humor corrosivo e certeiro de Fernando Gonsales, que em cada tira surpreende e desconcerta e revela o(s) animal(is) que há dentro de cada um de nós.
- A boa concepção gráfica dos livros, que permite incluir 5 tiras por prancha – são mais de 200 por álbum! – sem que exista uma mancha branca demasiado grande.
- Em textos recentes sobre álbuns de autores brasileiros, terminei-os sempre lamentando a sua ausência das livrarias nacionais. No caso destas (e de outras) colectâneas de Níquel Náusea, isso não acontecerá, pois elas estão disponíveis em Portugal, distribuídas pela Devir.
Editora a quem lanço o desafio para que também faça chegar aos leitores portugueses outros álbuns de autores brasileiros pertencentes ao seu catálogo, como Curtas e Escabrosas, Folheteen, Frauzio – Ares da Primavera, Histórias do Clube da Esquina, Mondo Urbano, Pequenos Heróis, Yeshuah…



2 comentários:

  1. O Gonsales é muito bom!

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    Respostas
    1. Caro Veloso,
      Bem-vindo a As Leituras do Pedro!
      Sim, é muito bom e tem uma capacidade de observação acima da média, que lhe permite reproduzir situações banais do dia-a-dia e da nossa herança cultural, deformadas pelo sarcasmo e pelo non-sense!
      Boas leituras!

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