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14/07/2011

J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga

#74 – Entre quatro paredes
Giancarlo Berardi, Lorenzo Calza e Alberto Ghé (argumento)
Valerio Piccioni (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Janeiro de 2011)
135 x 178 mm, 132 p., pb, brochado, mensal
4,00 €

Resumo
O aparecimento do industrial Norwell Standford morto, no seu escritório, fechado por dentro, e com um tiro na têmpora é o mote para mais uma investigação da criminóloga Julia Kendall.

Desenvolvimento
Se à partida este parece ser um clássico exemplo do crime ocorrido num espaço fechado, onde aparentemente ninguém podia entrar e de onde ninguém saiu, Berardi, Calza e Ghé encarregam-se de logo à partida lhe acrescentar uma nota distintiva: o facto de a investigadora Julia Kendall estar também confinada á sua casa, devido a ter ficado com os dois tornozelos inchados na sequência de uma dupla queda.
Apesar disso – e das certezas iniciais da polícia apontarem para o suicídio - a crimi-nóloga, com base nos relatos da imprensa e nas conversas com o tenente Webb, está mais inclinada para assassínio, levando a cabo uma investigação sem sair de casa, na senda, alias, de um nome famoso da literatura policiaria, o investigador Nero Wolfe, criação de Rex Stout.
Isso não impede que os habituais desentendimentos entre Julia e Webb tenham lugar, mesmo à distância, no caso durante um programa televisivo em directo sobre o sucedido, numa curiosa transposição da vida real para o pequeno ecrã...
A tensão habitual, acentuada pelas altas temperaturas, é quebrada recorrentemente pela interacção de Julia com a sua governanta, Emily e com a relação desta com o taxista Lenoir. Que, apesar do tom paródico que assume ao longo de toda a história, termina de forma amarga com um brusco regresso de Emily – e dos leitores - à realidade, nua e crua.
Do ponto de vista narrativo, a ancoragem da acção aos dois espaços – o apartamento onde a morte ocorreu e a casa de Julia – permite aos autores gerir o ritmo, alternando a acção entre eles – e entre as demarches levadas a cabo durante a investigação – mantendo o suspense e, durante muito tempo, a dúvida sobre o seu desfecho.
Em termos de resolução do caso, no entanto, esta será uma das menos estimulantes investigações desenvolvidas até agora por Julia – e apesar de tudo, uma daquelas em que a sua intervenção é menor – já que a descoberta da verdade assenta quase exclusivamente na análise das provas e indícios, faltando à protagonista o contacto directo com os diferentes intervenientes (e suspeitos) – a futura esposa, o sobrinho, o sócio e a secretária da vítima – para poder analisar depoimentos e reacções, adivinhando motivos e intenções.
Um destaque, final – para o final! – para a forma como se sucedem os acontecimentos que levam à descoberta dos elementos que possibilitam a resolução do caso, narrados a dois tempos – mais uma vez em casa de Julia e no apartamento de Stanford – e para a forma como os argumentistas trocam as voltas ao leitor, deixando-o sem saber ao certo on de está a acontecer o quê…
Graficamente, o trabalho de Valerio Piccioni segue a linha habitual em Julia: detalhado, demorando-se nos pormenores dos espaços para sustentar o tempo que a narrativa “perde” em cada um dos espaços, correcto do ponto de vista anatómico, atento a expressões e pequenos gestos, dinâmico q.b., sem distrair o leitor do fundamental: a história que está a ser narrada.

A reter
- A inovação no tradicional caso do crime em espaço fechado.
- A forma amarga como termina o relacionamento de Emily e Lenoir.

Menos conseguido
- A explicação final, pouco credível e abonatória do trabalho da polícia.
- O recurso a Emily e Lenoir para a acção de campo.

(Texto publicado originalmente no Tex Willer Blog, a 24 de Junho de 2011)

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