Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

24/06/2011

O Porto aos quadradinhos

Rui Ricardo
Se a poesia canta que do Porto “houve nome Portugal”, foi também lá que nasceu o primeiro grande salão nacional dos quadradinhos e, por via dele, muita banda desenhada, rica na sua diversidade, sedutora nas suas ofertas, que tem mostrado a cidade sob diversos prismas gráficos, históricos e ficcionais.
Com uma longa história, não surpreende, por isso, que as primeiras referências à Cidade Invicta nos quadradinhos sejam anacrónicas. Hermínio, herói de Borges e Moreiras, nas suas demandas passou por Portucale onde os valorosos habitantes gritavam “Portucale ainda será uma naçon!”, e Tito e André, com as liberdades que a ficção permite, levaram Tónius, o lusitano - uma espécie de émulo nacional de Astérix - num intervalo dos seus confrontos com os mouros, a provar um precioso néctar, “colheita de 680", retirado de barris encontrados num barco rabelo perto da foz do “rio Durius”, junto a uma (então) pequena povoação.
André
Mas deixando o humor de parte, pode-se afirmar que as visões do Porto aos quadradinhos, sempre com a cidade a servir de palco da narrativa, seguem geralmente dois rumos. O das abordagens históricas, assinadas por autores de traço clássico, e outras, mais modernas e recentes, de tom ficcional.
Um dos exemplos do primeiro aspecto considerado é a “História do Porto em BD”, de Luís Miguel Duarte e José Garcês, lançada quando a cidade foi Capital da Cultura, em 2001, para tornar acessível “a um público diversificado os episódios marcantes da rica história da antiga, mui nobre e sempre leal, invicta cidade do Porto".
José Ruy
Outras abordagens históricas, mais generalistas, incluem geralmente episódios ocorridos no Porto, como as lutas liberais ou as movimentações que levaram à implantação da República, como acontece na “História de Portugal em BD”, de Carmo Reis e José Garcês.
A presença do Porto é maior em “Almeida Garrett e a Cidade Invicta”, em que José Ruy, com a sua técnica personalizada, traça a biografia do grande escritor, realçando a sua ligação à cidade,que retrata com rigor bem como alguns dos seus contemporâneos. O mesmo autor, em “As viagens de Porto BomVento”, tem uma abordagem curiosa em que combina ficção e realidade histórica, para contar o quotidiano de um piloto do Douro, nascido em 1462 e que participou nalgumas das viagens dos Descobrimentos, ao mesmo tempo que retrata o Porto do século XV.
José Ruy
Mais recentemente, Carlos Morgado e Luís Correia colocam algumas das “História e Estórias do ACP” em zonas conhecidas da cidade, mostrando a sede do ACP, o palácio de Cristal ou a emblemática Torre dos Clérigos.
Paulo Jorge
Este mesmo monumento, embora de forma satírica, a cair de velho, surgia num dos folhetos do 1º Salão de BD e do Fanzine do Porto, em 1984, génese do primeiro grande evento regular do género dedicado aos quadradinhos.
Na sua esteira e graças ao impulso que o evento deu também à BD local, surgiram obras como “Jogos Humanos” e “Canção do Bandido”, ambas de Paulo Patrício e Rui Ricardo,com um tom próximo da crónica urbana, em que o Porto era o local de vivência e de experiências de uma juventude agitada e inquieta.
Vítor Almeida
Já “Stad”, resultou do desafio feito a 10 autores nortenhos “para contarem em BD uma das muitas histórias que lhes surgem do convívio diário com o Porto”, passando pelas suas páginas figuras como o cauteleiro, a peixeira, o moina e o engraxador e um prato típico como a francesinha.
Ainda no âmbito do SIBDP, não deixa de ser curiosa a visão traçada no seu diário gráfico por James Kochalka, um autor norte-americano que foi seu convidado, sensível às ruas estreitas, gradeamentos e… belas mulheres e que a Quadrado reproduziu.
Maior conteúdo ficcional encontra-se em “BRK”, de Filipe Pina e Filipe Andrade, que se inicia com um atentado terrorista na baixa do Porto, e, a outro nível, “Uma viagem fantástica”, resposta de Manuel António Pina e Rui Azul ao desafio de uma das empresas que concorreu à adjudicação do metro do Porto, para imaginarem como seria a futura rede de transportes rápidos.
Rui Azul
Com a íntima ligação à cidade por todos (re)conhecida, o F. C. do Porto também teve direito ao seu momento de fama… aos quadradinhos!
Artur Correia
Isso aconteceu na década de 1990, quando o jornalista Manuel Dias e o desenhador Artur Correia juntaram talentos para criar “Era uma vez um Dragão ou a história do Futebol Clube do Porto contada às crianças” (Edições ASA) (a par de “Era uma vez um Leão” e “Era uma vez uma Águia”, dedicadas respectivamente a Sporting e Benfica).
O livro, em tom divertido e com um traço caricatural, traça o percurso portista desde as suas origens no início do século XX, até à conquista da Taça dos Campeões Europeus, em Viena, em 1987, frente ao Bayern de Munique. E onde, como não podia deixar de ser, são reconhecíveis não só os grandes jogadores que passaram pelo clube como também treinadores como Pedroto, Morais e Artur Jorge e, claro, o seu presidente, Pinto da Costa.
Para concluir este passeio pelos quadradinhos que têm o Porto como palco, uma história de Pitanga, publicada no Quadrado, escrita por Arlindo Fagundes e Pedro Sousa Diasleva-nos até à Ponte Luiz I e à Ribeira, para assistir a uma reflexão amarga sobre racismo motivado por reminiscências da guerra colonial e da ditadura, cujo título evoca o hino “oficioso” da cidade: “Quem vem e atravessa o rio…”
Pedro Sousa Dias
Filipe Andrade

Rui Ricardo

Artur Correia

Vítor Borges

José Garcês

Luís Correia

James Kochalka

Rui Ricardo

Rui Ricardo

Referências bibliográficas
Hermínio – Regresso a Portucale
Paulo Moreiras (argumento)
Victor Borges (desenho)
Pedranocharco, 1996

Tónius o lusitano – Uma aventura nas Astúrias
Tito (argumento)
André (desenho)
Editorial Pública, 1981




História do Porto em BD
Luís Miguel Duarte (argumento)
José Garcês (desenho)
Edições ASA, 2001

História de Portugal em BD
(4 álbuns compilados num volume)
Carmo Reis (argumento)
José Garcês (desenho)
Edições ASA, 2005

Almeida Garrett e a Cidade Invicta
José Ruy (argumento e desenho)
Âncora Editora, 1999

As Viagens de Porto Bomvento
(8 álbuns compilados em 2 tomos)
José Ruy
Edições ASA, 2005

História e Estórias do ACP
Carlos Morgado (argumento)
Luís Correia (desenho)
Edição da Revista ACP, 2009




Jogos Humanos
Paulo Patrício (argumento)
Rui Ricardo (desenho)
ASIBDP+Bedeteca de Lisboa, 1999




Canção do Bandido
Paulo Patrício (argumento)
Rui Ricardo (desenho)
Edições Polvo, 2001

STAD
Ágata Moreira, Isabel Carvalho, J.M. Saraiva, Manuel Cruz, Mário Moura,
Paulo Patrício, Pedro Nora, Rui Duarte, Rui Ricardo, Vítor Almeida
ASIBDP+Colectivo alíngua, 2001




BRK tomo 1
Filipe Pina (argumento)
Filipe Andrade (desenho)
Edições ASA, 2009




Uma viagem fantástica
Manuel António Pina (argumento)
Rui Azul (desenho)
Gec Alsthom, 1996

Era uma vez um Dragão ou a história do F. C. do Porto contada às crianças
Manuel Dias (argumento)
Artur Correia (desenho)
Edições ASA, 1992




(Versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 24 de Junho de 2011)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...