Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

30 de outubro de 2009

BD para ver - Amadora BD 2009, fim-de-semana 2

Como os ecos que chegam sobre o Amadora BD são contraditórios, não há como passar por lá – até dia 8 de Novembro! – para ver com os próprios olhos e formar uma opinião pessoal.
Amanhã, sábado, e domingo, é possível encontrar por lá Maurício de Sousa, Giorgio Fratini, autor do surpreendente e muito interessante – Sonno Elefante – As paredes têm ouvidos (Campo de Letras), sobre o edifício que serviu de sede à PIDE, Achdé – actual desenhador de Lucky Luke, François Boucq, a mangaka luso-sueca Natália Batista, o cartoonista albanês Agim Sulaj, Korky Paul, do Zimbabwe, Yosh, da Suécia, Kei Suyiama e Nonaka Toshiki.
E, claro, os portugueses Rui Lacas (autor da prancha aqui mostrada), José Garcês, Hugo Teixeira, Osvaldo Medina, Nuno Duarte, Mário Freitas, Filipe Pina, Filipe Andrade, Ricardo Cabral, Rui Ricardo, Hugo Jesus, Rita Marques, Cristina Dias, Manuela Cardoso, Gisela Martins e Jorge Miguel, António Jorge Gonçalves e Jorge Miguel.
Motivos bem mais do que suficientes para ir ao Fórum Luís de Camões…

29 de outubro de 2009

Astérix 50 anos – Entrevista com Albert Uderzo

Chama-se Albert Uderzo e nasceu em Fismes, na França, a 25 de Abril de 1927. Os 50 anos de Astérix, que se cumprem hoje, foram o pretexto para uma conversa por mail, com a preciosa intermediação da Drª Maria José, das Edições ASA, na qual evocou com saudade o seu amigo René Goscinny, bem como o passado e o futuro do herói que juntos criaram.

- Como apresenta Astérix a alguém que não o conheça?
- Quer dizer que ainda há leitores irredutíveis? (risos) Pois bem, não sei como o apresentar: Astérix é um valoroso guerreiro gaulês, não muito grande nem muito inteligente, mas astuto e desenrascado! Ele e os outros habitantes da sua aldeia só têm medo de uma coisa: que o céu lhes caia na cabeça!
Sempre em companhia do seu fiel amigo Obélix e de Ideiafix, o seu cão, percorrem o mundo antigo para socorrerem as vítimas dos romanos.
Para darem uns ”tabefes” aos romanos, ele e os seus amigos da aldeia precisam de uma preciosa poção mágica preparada pelo druida Panoramix que lhes dá uma força sobre-humana e lhes permite alcançar todas as vitórias, que festejam sempre com um grande banquete!
- Como seria Astérix se fosse imaginado hoje?
- Como já é! Ele mudou muito desde a sua criação. Cresceu, os seus traços afirmaram-se e a sua personalidade também! Falo dele, mas Obélix também mudou: a sua estrutura, algo quadrada nos ombros, atenuou-se em benefício da barriga, que cresceu! Todas as personagens evoluíram e estão muito bem neste tempo!
- Nos últimos 50 anos quem mudou mais? Astérix, o mundo ou Uderzo?
- Tenho que reconhecer que quem está mais marcado é este seu criado! Onde estão os meus 20 anos? como diz a canção!
Quanto ao mundo, não me parece que tenha mudado muito em 50 anos e a prova é que os álbuns que escrevi com o meu amigo René Goscinny continuam muito divertidos! E no entanto, na época acusaram-nos de reduzir as culturas a clichés, os franceses regateiros, etc… Isso não mudou muito! Astérix não pode mudar, o seu mundo é imaginário! Não pode envelhecer: já reparou que 50 anos depois, continua a viver em 50 a.C.? Não, Astérix não mudou!
- Que qualidades permitiram a Astérix resistir tanto tempo, com um sucesso sempre crescente?
- Não sei, talvez porque se manteve sempre num mundo de papel, aos quadradinhos! Um mundo que lhe permite defender sempre os mesmos valores, como a resistência, por exemplo, porque a aldeia dos gauleses nunca se sujeitará ao opressor romano! Está escrito a introdução de todos os álbuns: “Uma aldeia resiste ainda e sempre ao invasor”. Talvez porque preserva a sua aldeia, as suas amizades e os seus prazeres simples (a caça, os banquetes, etc…) E nós, autores, quisemos sempre preservar esses valores na érie, com um ingrediente suplementar: o riso! Que é o mais importante!
- Quais foram os momentos mais importantes deste percurso de 50 anos?
- Houve tantos! Sabe, a minha carreira e a do René não começou há 50 anos. No que me iz respeito, há já 65 anos que desenho!
O primeiro momento importante para estes 50 anos foi sem dúvida o meu encontro com René, em 1951! Porque sem ele, não teríamos criado a personagem! Depois, em 1959, quando o imaginámos pela primeira vez, aquando da criação da revista “Pilote” que se dirigia aos jovens adolescentes!
E, evidentemente, quando tomámos consciência que Astérix se transformara num verdadeiro fenómeno, ao ouvir um homem na rua a chamar ao seu cão Astérix!.
O momento importante mais lamentável foi o desaparecimento prematuro do meu amigo René em 1977. Arrasou-me.
E hoje, o cinquentenário desta personagem que, para meu grande prazer, continua a divertir pequenos e grandes. Sinto-me orgulhosos por poder celebrar este meio século de amizade com os leitores!
- Se pudesse voltar atrás, o que gostaria de mudar?
- A partida de René. Foi-se demasiado cedo e uma forma demasiado violenta. Sinto muito a sua falta. De resto, não mudaria nada desta aventura gaulesa!
- Que história de Astérix ainda não contou?
- Todas as que ainda não foram escritas. E talvez aquela em que penso para a próxima vez! (risos) Já na época de René tínhamos a sensação de termos explorado todos os temas que podíamos desenvolver com Astérix. E de cada vez que um álbum era publicado faziam-nos sentir isso! Hoje, o problema é o mesmo, Astérix já viajou por todo o mundo antigo conhecido e é muito difícil fazê-lo descobrir novas regiões! As aventuras desenrolam-se na aldeia, em França ou noutros países… Continuo a reflectir e logo que tenha uma ideia vou escrevê-la e pegar num lápis para a colocar em imagens!
- Porque é que Astérix nunca veio à Lusitânia?
- Eis uma bela ideia para uma viagem! Agora só tenho que encontrar a intriga (risos)!
- Qual é o seu álbum de Astérix preferido?
- Não tenho nenhum preferido. Tenho talvez um carinho especial por “Astérix entre os Bretões”, porque adoro o trabalho que o René fez em torno da língua inglesa! Quando termino um álbum, raramente o releio; parto logo para o seguinte, se assim se pode dizer!
- O álbum dos 50 anos é diferente dos outros…
- Para os 50 anos de Astérix queria um álbum especial. Um álbum onde todos os amigos das personagens principais lhes testemunhassem a sua amizade e lhes oferecessem uma prenda! E ao mesmo tempo presto uma homenagem a todos os leitores que seguem Astérix há tanto tempo! Então, imaginei um livro de ouro, uma espécie de álbum de recordações! É um conjunto de histórias curtas, todas com a temática do aniversário, que contam a preparação de todas essas prendas.
- Foi o último desenhado por si?
- Meu Deus, espero que não! Enquanto puder segurar um lápis, pode acreditar que não cederei o meu lugar a ninguém! É verdade que Astérix continuará depois de mim, já o anunciei e já trabalho com aqueles que me devem suceder mas isso tem tempo!
- Vai deixar argumentos escritos para os seus sucessores?
- Ainda não pensei nisso e não preparei nada nesse sentido.
- Como imagina Astérix depois de Uderzo?
- Já houve um Astérix depois de Goscinny e espero que haja u depois de mim. Como o imagino? Espero que Astérix continue a divertir os milhões de leitores que já tem em todo o mundo.

(Versão integral da entrevista publicada hoje no Jornal de Notícias)

27 de outubro de 2009

Almanaque Tex #30

O preço da honra/A força do destino
Claudio Nizzi (argumento)
Venturi (desenho)
Mythos Editora (Brasil, Setembro de 2006)
135 x 178 mm, 228 p., pb, brochado

Resumo

Santos, um jovem apache que trabalhava para o exército como batedor, comete um brutal assassinato à vista de todos. Para descobrir o porquê daquele crime inexplicável, Tex tem que mergulhar no seu passado em busca da resposta, contando ao seu filho Kit e a Kit Carson a história do pai de Santos, o terrível guerreiro conhecido como Lobo Raivoso.

Desenvolvimento
Numa série como Tex, com produção regular mensal (com tudo o que de bom e de mau este conceito acarreta), e uma qualidade média bastante razoável, as histórias mais interessantes, a nível de argumento, para mim, acabam por ser aquelas que fogem mais aos estereótipos normalmente associados ao herói. Ou pela abordagem de temáticas distintas ou por se atreverem a um tratamento diferente do (tão imutável) protagonista (que é assim, porque é assim que os leitores gostam, por muito que alguns "críticos" gostassem de ver outras temáticas/situações/personagens nas suas histórias).
Um desses casos é o diptíco publicado neste número do Almanaque Tex, colecção que publica histórias inéditas de Tex originalmente publicadas na série italiana "Almanacco del West" ou histórias que ficaram por publicar quando era a Editora Vecchi a responsável pela edição brasileira de Tex (porque o herói Bonelli, no Brasil, já passou pelas mãos das editoras Vecchi, Rio Gráfica, Globo e Mythos, embora mantendo sempre a numeração aquando das mudanças de editora).
Numa história recente, de 2006, como habitualmente bem narrada e estruturada, funcionando à base de constantes flash-backs, aparentemente dentro dos códigos que regem um dos mais famosos e populares westerns europeus, há uma diferença fundamental: Tex, geralmente dono e senhor da situação, infalível e (quase) omnipotente, falha estrondosamente. E logo por três vezes. Primeiro, quando não consegue evitar o fim trágico de Natay, o índio rebelde que quase lhe rouba o protagonismo da narrativa. Depois, quando não consegue que o verdadeiro criminoso, o oficial do exército corrupto, seja levado à justiça. Finalmente, quando não consegue evitar ou pelo menos atenuar o castigo (apesar de tudo justo) do seu assassino. Motivos suficientes - mas há mais, que deixo aos leitores descobrir - para mergulhar na leitura destas mais de 200 páginas.

Curiosidade
Se o desenho de Venturi é profissional q.b., eficiente, expressivo e dinâmico, não deixa de ser interessante reparar como o Tex das situações em flash-back é igualzinho ao Tex das cenas passadas na actualidade. Isto, apesar dos cerca de 20 anos que medeiam entre as duas. Mais uma prova da imutabilidade de Tex e de que os grandes heróis são mesmo eternos!

(versão revista e actualizada do texto originalmente publicado no BDJornal #22 de Junho/Julho de 2007)

23 de outubro de 2009

Efeméride – Terry and the pirates

A 22 de Outubro de 1934, fez ontem exactamente 75 anos, o Chicago Tribune estreava nas suas páginas uma das mais elogiadas bandas desenhadas de aventuras de todos os tempos: “Terry and the Pirates”.
Nela, Terry Lee, um jovem americano, inteligente e dinâmico, chega à China em companhia de Pat Ryan, em busca de uma mina legada por um tio. Era o início de uma longa viagem, por um país que na época era sinónimo de mistério, exotismo e desconhecido, no qual conheceram a graciosa Dale Scott e o “telível” e “tlapalhão” chinês Connie, e enfrentaram sanguinários piratas e belas e sensuais mulheres fatais, entre as quais a enigmática vilã Dragon Lady, inspirada em Marlene Dietrich, a sofisticada Normandie Drake ou a intrigante Burma, que ficaram como imagens marcantes da série, uma das primeiras a fazer alusão ao sexo na imprensa norte-americana.
O seu autor era Milton Caniff, citado como referência por Pratt, Eisner ou Kirby, pelo seu traço realista rigoroso, expressivo e dinâmico, e pelo magistral uso do pincel para definir os contrastes de luz e sombra, com os quais deu corpo a intrigas palpitantes, plenas de mistério, acção, algum humor e, progressivamente, com uma consistente base documental.
Com a invasão de Pearl Harbour pelos japoneses, Caniff colou-se à realidade e alistou Terry no exército americano para os combater mas, no início de 1946, deixaria os seus heróis a George Wunder, que, sem grande brilho, fez de Terry soldado profissional, envolvido na guerra fria contra chineses, comunistas e vietnamitas, num longo declínio que se prolongaria até ao seu final, em Fevereiro de 1973. Uma curta ressurreição, entre 1995 e 1997, não deixou saudades.
Há dois anos, assinalando o centenário de Caniff (1907-1988), autor também da pin-up “Male Call” e do aviador “Steve Canyon”, as tiras e pranchas dominicais de “Terry and the Pirates” de sua autoria foram reunidas pela IDW Publishing, em seis luxuosos volumes.
Em Portugal, as aventuras de Terry foram publicadas (pelo menos…) no “Mundo de Aventuras”.

(Versão revista do artigo publicado no Jornal de Notícias de 22 de Outubro de 2009)

Lançamento – TX Comics

Cameron Stewart
Kark Kerschl
Ramón Pérez
Kingpin Books (Portugal, Outubro de 2009)
72 p., cor

Também amanhã, dia 24, e também no 20º Amadora BD 2009, mas às 16 horas, a Kingpin Books apresenta a sua primeira tradução, o álbum colectivo TX Comics, que apresenta assim no seu blog:
“Outrora conhecido como Transmission-X, TX COMICS é o colectivo online canadiano de ilustradores profissionais, do qual fazem parte, entre outros, Cameron Stewart, Karl Kerschl e Ramón Pérez. Reconhecendo a internet como fonte principal de arte e entretenimento, e movidos pela ambição de produzir obras pessoais e inovadoras, livres de restrições comerciais ou editoriais, os multi-premiados artistas têm produzido alguns dos melhores webcomics produzidos em exclusivo para a net”.
Os autores estarão presentes no lançamento.

Lançamento – Mucha

David Soares (Argumento)
Mário Freitas (Desenho
Osvaldo Medina (Desenho)
Kingpin Books (Portugal, Outubro de 2009)
36 p. pb

O lançamento deste conto de terror é amanhã, sábado, 24 de Outubro, às 15h, no Fórum Luís de Camões, onde está a decorrer o 20º Amadora BD 2009.
O press da editora reza assim:
“O horror está a chegar à aldeia e as coisas não voltarão a ser como dantes.
6 anos depois de A Última Grande Sala de Cinema, “Mucha” marca o tão aguardado regresso à BD do romancista David Soares (Lisboa Triunfante, A Conspiração dos Antepassados), numa história de horror intimista, subversiva e inteligente, bem reveladora da voz autoral ímpar que define a obra do erudito autor.
Baseada na premissa da peça surrealista Rhinocéros, de Eugène Ionesco, “Mucha” é uma extravagância visceral sobre a ameaça de desumanização que pende sobre a cabeça de Rusalka, uma camponesa que se vê, de um dia para o outro, imergida num mundo que insiste em ser uniforme, perigoso e destituído de qualidades.
Ilustrado por Osvaldo Medina (A Fórmula da Felicidade) e Mário Freitas (Super Pig) num estilo negro singular que recupera o expressionismo gótico das bandas desenhadas clássicas de horror, “Mucha” apresenta cenas de cortar a respiração, pautadas por um ritmo frenético que não deixará nenhum leitor indiferente; ou doravante tranquilo perante uma simples mosca.
“Contundente como uma pá que tanto serve de arma de defesa como de abertura do último descanso.” (Pedro Vieira de Moura, da Introdução)”.

Os autores estarão presentes no lançamento.

BD para ver – Amadora BD 2009

Começa hoje e prolonga-se até 9 de Novembro, o Amadora BD 2009, nova designação do (agora ex-) FIBDA – Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora.
A cumprir 20 anos, o evento aposta na efeméride que se reflecte em boa parte da sua programação, embora eu, pessoalmente, considere que a data e a sua importância mereciam um programa mais recheado, mais festivo.
As propostas do Amadora BD 2009 são muitas, mas, de qualquer forma, permito-me salientar as cinco (justas e merecidas) homenagens que promove: Adolfo Simões Muller, Astérix, Hector Oesterheld, Maurício de Sousa e Vasco Granja. Eis a lista completa de exposições:
FÓRUM LUÍS DE CAMÕES
-Exposição Central - Consequências e Heranças do FIBDA: Almanaque; Contemporaneidade Portuguesa; Colecção CNBDI; 20 anos de Concursos
- 50 anos de Astérix
- Maurício de Sousa – 50 anos de carreira
- José Garcês – História do Jardim Zoológico de Lisboa
-Giorgio Fratini - Sonno Elefante – As paredes têm ouvidos
- Prémios Nacionais de BD 2008: Rui Lacas – retrospectiva da obra; António Jorge Gonçalves – Rei; Madalena Matoso e Isabel Minhós Martins – ilustração infantil; Emmanuel Lepage – Muchacho
- F.E.V.E.R. – novela gráfica, adereços e fotografias
-Osvaldo Medina – Fórmula da Felicidade e Mucha
- Colectiva de autores da Polónia
- Colectiva de autores do Canadá – Cameron Stewart, Karl Kerschl e Ramón Pérez
-Mangá e Anime – Ncreatures – Yosh, Natália Batista, Rita Marques, Cristina Dias, Manuela Cardoso e Shoot to Kill
- 20º Concurso de BD

GALERIA MUNICIPAL ARTUR BUAL
- Homenagem a Vasco Granja
CASA ROQUE GAMEIRO
- Centenário de Adolfo Simões Muller
RECREIOS DA AMADORA
- Cartoon
CNBDI
- Exposição retrospectiva/biográfica de Héctor Germán Oesterheld
ESCOLA SUPERIOR DE TEATRO E CINEMA
- Riscos do Natural, de José Ruy
CENTRO COMERCIAL DOLCE VITA TEJO - KIDZANIA
- Em Traços Miúdos, Ricardo Ferrand, Pedro Leitão e José Abrantes

Sem que se compreenda o porquê dos portugueses continuarem esquecidos nas listas de autores presentes, fica a relação dos convidados estrangeiros que será possível encontrar por lá amanhã, sábado, e domingo: Cameron Stewart (Canadá), Karl Kerschl (Canadá), Ramón Pérez (Canadá), Miguel Angel Martin (Espanha), Emmanuel Lepage (França), Carlos Sampayo (Argentina), Oscar Zarate (Argentina) e C.B. Cebulski (EUA).
A programação integral bem como todas as informações adicionais podem ser consultadas no site do Festival.

22 de outubro de 2009

Trois éclats blancs + Une après-midi d'été

Bruno Le Floc'h (argumento e desenho)
Delcourt (França, Outubro de 2004 e Maio de 2006)
203 x 262 mm, 96 p., cor, cartonado com sobrecapa


Princípio do século XX. Um jovem engenheiro é enviado para a (então) longínqua costa bretã para construir um farol. Tarefa aparentemente fácil, que um pormenor natural vai complicar e quase tornar impossível: o rochedo sobre o qual o farol deve ser construído, só está emerso uns trinta dias por ano. Por isso uma estadia previsivelmente curta, vê as semanas passarem a meses e estes a anos, o que obriga o engenheiro a integrar-se na pequena vila onde está a residir. Para isso, deve primeiro ultrapassar a natural desconfiança inicial dos autóctones, rudes e solitários, mas também humanos e solidários, depois impor-se para finalmente conseguir que o aceitem, fazendo mesmo algumas amizades, graças à sua perseverança em levar a bom porto a missão que lhe foi confiada. Isto, apesar de algumas tragédias – umas humanas, outras causadas pela natureza que parece rir da impotência humana - que vão suceder e de um ou dois desentendimentos, que, se de alguma forma põem em causa o projecto, ajudam o engenheiro a descobrir-se e, também, a revelar-se.
É isto que conta Trois éclats blancs (Delcourt), uma narrativa serena, impressiva, pincelada de nostalgia, que discorre sobre as relações humanas, aflorando sentimentos, revelando paixões, realçando traços de carácter, dando a primazia à amizade. Nele, o autor, Bruno Le Floc'h, vai desenvolvendo com um traço sensível e relaxante, voluntariamente impreciso, para nos conduzir até a um final inesperado, que, não fugindo ao previsível "acabar bem", deriva dele, deixando-o em aberto.
Alguns anos depois, reencontramos duas das personagens: um homem e uma mulher; Nonna e Perdrix. Duas personagens que se amaram, mas entre as quais um homem passou - o tal engenheiro do primeiro álbum - duas personagens entre as quais um grande fosso se cavou. Um fosso, ou melhor, uma trincheira. As trincheiras (e as suas consequências) da tristemente célebre guerra das trincheiras, a Primeira Guerra Mundial, que passou pelos dois, mantendo-os fiéis no seu amor, esperando-se reciprocamente. Mas cujos efeitos psicológicos destroçaram Nonna, mantendo-o prisioneiro das experiências que viveu, tornando-o incapaz de se dar, de se relacionar, de se entregar a Perdrix.
O traço é o mesmo, impressivo, expressivo, muitas vezes suficiente só por si para nos contar horrores de uma realidade que muitos viveram; onde muitos deixaram de viver. Literalmente, acabando com as suas dores neste mundo, ou em sentido figurado, como Nonna, continuando prisioneiro das suas dores interiores.

(Versão revista e actualizada do texto originalmente publicado no BDJornal #22 de Junho/Julho de 2007)

Quand j'étais star

Colecção écritures
Marc Villard (argumento)
Jean-Phylippe Peyraud (desenho)
Casterman (França, Janeiro de 2008)
170 x 234 mm, 240 p., cor, pb e sépia, brochado com badanas


Não vem na linha da actual onda de adaptações de obras literárias a banda desenhada, que tantas dezenas de novos títulos tem rendido à BD francófona, já que ela tem seguido quase exclusivamente os clássicos, mas a verdade é que "Quand j'étais une star" parte de contos curtos do escritor Marc Villard, que surge aqui como argumentista e também como protagonista de quase todas as histórias.
Peyraud, com o seu traço habitual, linha clara, sóbria, muitas vezes próxima do esboço, em que o preto e branco surge tintado de um castanho pálido, constrói os ambientes citadinos a que já nos habituou, ajudando-nos a entrar no espírito do volume, de controlada unidade, apesar de reunir mais de duas dezenas de narrativas.
A temática, trabalhada com energia, clareza e ironia, discorre sobre as ambições, desejos, esperanças, recordações, medos e fraquezas de um escritor-aspirante-a-grande-escritor, que dão corpo a uma sólida comédia de costumes, desconstruindo algumas das obsessões quotidianas dos nossos dias.

(Versão revista e actualizada do texto originalmente publicado no BDJornal #22 de Janeiro/Fevereiro de 2008)

Astérix 50 anos - O aniversário de Astérix e Obélix – O livro de ouro

René Goscinny e Albert Uderzo (texto)
Albert Uderzo (desenhos)
ASA (Portugal, Outubro de 2009)
221 x 293 mm, 56 p., cor, cartonado


Resumo

A propósito do aniversário de Astérix e Obélix, o chefe Matasétix convida para virem à aldeia todos aqueles que se cruzaram com os dois gauleses ao longo das suas aventuras, para se associarem à efeméride e trazerem-lhes um presente. Uns acedem ao convite e aparecem; outros, por razões diversas, apenas podem enviar um postal. E as prendas, opiniões, recordações ou premonições, vão-se multiplicando, com a participação de gauleses, romanos e outros.

Desenvolvimento
Num registo entre a banda desenhada, que em boa verdade ocupa apenas 34 das 56 páginas do livro, e a ilustração, este é um álbum atípico de Astérix.
Desde logo, porque embora sendo uma única narrativa – até na numeração das pranchas - apesar do fio condutor descrito atrás, a história é feita de episódios soltos, unidos apenas pela temática comum. Isto levanta alguns problemas na leitura, com algumas das soluções escolhidas a não funcionarem muito bem, devido aos diferentes ritmos, de estilo e de forma de cada cena.
O álbum até começa muito bem, com quatro pranchas em que a acção se passa em 1 d. C. (depois de Cristo), com os heróis a surgirem 50 anos mais velhos e com famílias (bastante) desenvolvidas, o que possibilita alguns gags bem conseguidos. A aparição de Uderzo, vítima da insatisfação de Obélix, repõe a normalidade, descobrindo-se que - afinal? – tudo não passou de um sonho. Ou de uma reflexão de Uderzo sobre a perenidade dos heróis dos quadradinhos…
Depois, começa a narrativa base propriamente dita, heterogénea, como atrás referi, que combina momentos pouco felizes – o “desfile” de moda de Obélix feito pela srª Decanonix, o jogo da pelota romana, a descrição casamenteira de Boapinta, a mulher do chefe, a divagação de Decanonix, o mau gosto do efeito provocado pelo presente de César … - com outros bem divertidos, como a iniciação à leitura de Obélix, a recuperação do texto de Goscinny sobre as férias gaulesas, os “postais ilustrados” de Númerobis e dos piratas, com Babá a emular Kate Winslet em “Titanic”.
Mas o álbum vale – e quero reforçar a ideia de que globalmente o álbum vale a pena – pela releitura feita a algumas cenas de álbuns anteriores e pela inclusão de versões de obras-primas da pintura e da escultura, apropriadas aos heróis gauleses, com especial destaque para as foram feitas originalmente pelos mestres Delacroix, Munch, Courbet e, especialmente, Arcimboldo (que originou um fabuloso Astérix reconstruído com recordações das suas viagens). E também dos mestres (da BD) Franquin e Dany. Numa clara alusão à celebração da banda desenhada enquanto arte (maior).
Graficamente, a heterogeneidade mantém-se, pois para além da reprodução de vinhetas de vários dos álbuns da série, são incluídas também ilustrações já publicados, a par das pranchas e ilustrações inéditas, que mostram um Uderzo ao nível do seu melhor. Fica a (enorme) curiosidade de saber quanto deste trabalho se deve (ainda) a ele e quanto é (já) da autoria daqueles que vão continuar Astérix após Uderzo: Régis Grébent e os irmãos Frédéric e Thierry Mébarki, no desenho (e, previsivelmente, Arleston, nos argumentos).
E se o final é algo frouxo, este álbum é, antes do mais, um (apesar de tudo) belo passeio pelo riquíssimo imaginário de uma série incontornável da banda desenhada franco-belga e mundial, e um apelo à memória de todos aqueles que alguma vez a leram.
Aliás, na realidade, concluída a leitura, fica a ideia que o livro, pensado como a celebração de 50 anos de aventuras, funciona como o encerrar de um ciclo, deixando livre o caminho para os sucessores de Uderzo.

A reter
- Antes de tudo, a (bela) evocação de tantas personagens, cenas e situações de 50 anos de Astérix ;
- O episódio de abertura ;
- As variações “cinematográficas“ de algumas cenas de álbuns anteriores;
- A apropriação de esculturas e pinturas clássicas, ajustadas às características das personagens de Astérix.

Menos conseguido
- O Obélix através dos séculos a pretexto do mote “moda”;
- As considerações de Decanonix;
- O episódio casamenteiro de Boapinta;
- O mau gosto do episódio da (falhada) vingança de César.

Curiosidades
- O álbum foi posto à venda simultaneamente hoje, 22 de Outubro, em 18 países;
- A sua tiragem global foi de 3,5 milhões de exemplares;
- Em Portugal a tiragem inicialmente prevista era de 50 mil cópias, mas foi aumentada para 60 mil devido á procura entretanto registada.

Desafio
- Descubra no álbum todas as personagens evocadas e associe-as ao respectivo álbum original. A informação distribuída à imprensa falava em cerca de 400…

20 de outubro de 2009

Astérix 50 anos - A triplicar

Astérix Legionário
Astérix na Córsega
Obélix e Companhia
René Goscinny (argumento)

Albert Uderzo (desenho)
Edições ASA (Portugal, (Março e Maio de 2007)
222 x 291 mm, cor, 48 p., cartonados


Enquanto se agrada pela próxima quinta-feira, dia 22, para conhecer - aqui no blog às 00h01 - "O Aniversário de Astérix e Obélix - O Livro de Ouro", o 34º álbum das aventuras de Astérix e Obélix, fica a evocação de três títulos fundamentais da série.

Corria o ano de 2007 e, continuando a reedição dos álbuns de Astérix, integrada na comemoração dos seus 45 anos (em Outubro de 2004), com novas traduções e edições numeradas e identificadas com selo branco, a ASA lançava no mercado mais meia dúzia de títulos entre os quais três dos melhores álbuns da série - "Astérix Legionário" (1967), "Astérix na Córsega" (1973) e "Obélix e Companhia" (1976) -, se tal distinção é permitida, sendo os restantes "O Domínio dos Deuses" (1971), "Os Louros de César" (1972) e "O Presente de César" (1974).
Vinham com a nova tradução, com defeitos e qualidades em relação à anterior, a que se pode apontar como aspectos mais negativos o uso de expressões anacrónicas ("vira o disco e toca o mesmo") ou de nomes associados a regionalismos… lisboetas (Transtejix), eu se destacava pelo facto de todos, com excepção de Astérix, Obélix e Panoramix, terem novos nomes, aportuguesados.
A reedição em si, tem a vantagem de poder levar muitos a reencontrar o bom, velho Astérix, que tão maltratado tem sido nos álbuns que Uderzo assinou a solo, e outros a redescobri-lo em toda a sua pujança.
Isto porque basta uma leitura superficial pode fazer sorrir (pelo menos…) com as situações recorrentes - a pancada que os gauleses distribuem aos romanos, o hábito de Obélix coleccionar capacetes de legionários, a razia (anti-ecológica…!) que os gauleses provocam nos javalis, os constantes desaires dos piratas ou as desavenças entre o peixeiro Ordemalfabétix e o ferreiro Éautomatix - resolvidas sempre de forma diferente mas sempre de forma hilariante.
Mas é uma leitura mais atenta (e também mais culta…) que permite desfrutar em pleno de uma das melhores séries humorísticas de todos os tempos e não me refiro apenas à banda desenhada. Isto porque René Goscinny, numa demonstração de um sentido de humor ímpar e de uma bagagem cultural invejável, aproveitou-a para fazer crítica social e de costumes, satirizar pessoas, regiões, países e povos, de uma forma que resiste perfeitamente ao passar dos anos, abordando aspectos como a ecologia, a imobiliária, a organização política e militar, o relacionamento inter-pessoal, a própria realidade histórica ou brincando até com as convenções da própria linguagem da BD.
Assim, “Astérix Legionário” é uma sátira brilhante e arrasadora à instituição militar, desmontando e ridicularizando os seus formalismos, burocracias, métodos de treino e tácticas de combate, quando Astérix e Obélix se alistam para libertar um amigo feito voluntário à força em tempo de guerra civil.
Já “Obélix e Companhia” é uma incursão pelo intrigante mundo dos negócios, quase um tratado de economia em menos de meia centena de páginas que exemplificam magistralmente conceitos como oferta e procura, desvalorização da moeda ou falência.
Finalmente, “Astérix na Córsega”, traça um retrato irresistível de um povo (muito) "susceptível", incapaz de esquecer e perdoar, ciente dos seus valores e tradições e dos seus queijos de cheiro nauseabundo. E este álbum, mais do que qualquer um deste lote, destaca-se por mostrar um Uderzo em plena posse das suas (muitas e inexcedíveis) faculdades gráficas, combinando o tom caricatural da série com o tratamento semi-realista aplicado aos corsos e à pujante representação da sua ilha, e combinando o seu traço suave, vivo e dinâmico com o bom domínio da planificação, do ritmo e do sentido de leitura.

(Versão revista do artigo publicado no Jornal de Notícias de 26 de Agosto de 2007)

19 de outubro de 2009

Efeméride - E há 50 anos Crumb criou Fritz the Cat

A 15 de Outubro de 1959, Robert Crumb, nascido em 1943, esboçava Fritz the Cat, longe de imaginar o sucesso que lhe traria uma personagem inspirada num gato que teve em criança e na personagem então criada para divertir as suas irmãs e que só seria impresso cinco anos mais tarde.
Marco na história da banda desenhada underground norte-americana, de que muitos consideram Crumb o pai, Fritz é um animal antropomórfico, que serviu ao autor para criticar de forma ácida e mordaz a América dos anos 60 e a sua cultura pop, em narrativas delirantes e politicamente incorrectas, em que tudo é questionado. Nas primeiras histórias o traço de Crumb, onde se reconhecem ainda influências de Disney, é limpo e despojado, rápido e ágil, como se a urgência de narrar a tal obrigasse, mas, com o passar dos anos, emerge o estilo personalizado do autor, mais impressivo e sujo e com os cenários bem preenchidos.
Morador numa grande cidade, preguiçoso, egocêntrico, interesseiro, volúvel, sem princípios éticos ou morais, provocador de conflitos e desejoso de experiências sexuais com qualquer fêmea, independentemente da sua raça, o felino fez de Crumb tudo aquilo que ele não desejava: um autor respeitado e aclamado, com a sua criação transformada num objecto de desejo da sociedade de consumo. A boa aceitação da longa-metragem com o seu nome, dirigida por Ralph Bakshi, em 1972 - que foi o primeiro filme de animação a ser classificado para adultos nos EUA - foi a gota de água, que levou o desenhador a decidir acabar com a ele. Isso sucederia nesse mesmo ano, em “The death of Fritz the Cat”, em que o felino morre às mãos de uma ex-namorada, uma avestruz neurótica e enciumada, armada com um picador de gelo, ainda antes da estreia do segundo filme animado, “The nine lives of Fritz the Cat” (1974).
Publicado inicialmente na revista “Help” e depois em alguns jornais e em publicações underground, “Fritz the cat”, cujas histórias, pin-ups e ilustrações diversas continuam a ser regularmente reeditadas, fez uma breve aparição em Portugal, no jornal “Lobo Mau” (1979).

(Versão revista do texto publicado no Jornal de Notícias de 15 de Outubro de 2009)

Lançamento - La Genèse

Robert Crumb (adaptação e desenho)
Denoel Graphic (França, Outubro de 2009)
218 x 314 mm, 220 p., p&b, cartonado


Um dos lançamentos de banda desenhada aguardados com mais curiosidade neste final de ano é esta adaptação do livro bíblico do Génesis, feita pelo pai da BD underground norte-americana, Robert Crumb.
Polémico como sempre, durante uma recente conferência de imprensa em França, Crumb revelou que esta obra o ocupou durante quatro anos; que, ainda segundo ele, a começou a detestar ao fim de uma dezena de pranchas mas que levou o encargo até ao fim porque o editor lhe prometera um bom pagamento. O que entra em contradição com o facto de ter recusado uma oferta de três milhões de dólares pelo conjunto das mais de 200 pranchas que constituem o livro…
O criador de Fritz the cat seguiu fielmente o texto original e acredita que a leitura do seu Génesis vai surpreender muita gente que conhece a narrativa bíblica apenas superficialmente.
Disponível hoje nos EUA e no Reino Unido e dia 22 em França, a versão de Crumb deverá chegar até ao final do ano a diversos outros países. Tanto quanto sei, Portugal não incluído… Fica prometida uma recensão aqui no blog, em breve.

14 de outubro de 2009

Fora das Livrarias - Léo, o puto surdo

Yves Lapalu (argumento e desenho)
Surd’Universo (Portugal, Dezembro de 2006)
172 x 240 mm, 104 p., cor, brochado


O autor deste álbum foi o francês Yves Lapalu, falecido em Março de 2001, um bretão que adorava futebol americano e ficção científica e que foi o primeiro surdo a estudar na Escola Superior de Artes Gráficas, em França.

Partilhando o problema auditivo com Léo, o protagonista (tantas vezes involuntário) das histórias curtas nele narradas, fez desta obra um caso singular, pela forma como aborda, com assinalável humor, muitas das dificuldades que os surdos vivem no dia-a-dia num mundo bem mais ruidoso do que o recomendável, mostrando como situações perfeitamente normais para pessoas que ouvem bem, se podem tornar perigosas, constrangedoras, surpreendentes ou apenas divertidas para as pessoas surdas.
Desenhado num estilo humorístico, agradável e simpático, e servido por cores vivas e atraentes, "Léo, o puto surdo", que "resolve todos os seus problemas com humor, ensinando-nos que o melhor remédio para a surdez é sorrir dela", torna essas situações engraçadas para todos, como é o caso da narrativa em que tenta à força ajudar um cego a atravessar a rua, apesar dos seus protestos (ruidosos)!
A actual edição, da responsabilidade da Surd'Universo, que se apresenta como "um sonho colectivo de todos aqueles que pertencem, ou simplesmente se interessam pela Comunidade Surda", teve uma tiragem de 2.000 exemplares (disponíveis naquele endereço) e compila os dois volumes originais de 1998 e 2002, o que permite acompanhar o desenvolvimento dos talentos gráfico e narrativo do autor ao longo do tempo.
A sua tradução teve uma dificuldade inusitada e inultrapassável: as diferenças substanciais entre a Langue des Signes Française (LSF), utilizada em "Léo" por Lapalu, e a Língua Gestual Portuguesa (LGP); assim, não sendo viável a alteração dos desenhos originais, eles podem causar alguma confusão a quem domina a LGP. Isto acontece, explica Rui Pinheiro da Surd'Universo "porque foi um sueco que veio cá ensinar as bases da língua gestual e portanto estamos mais perto da Língua Gestual Sueca do que de outra qualquer…".O que não impede a compreensão plena de "Léo, o puto surdo", que mostra como a banda desenhada é uma arte com inúmeras potencialidades, que tem sabido abordar, sob diversos prismas, as diferenças que podem afectar os seres humanos (ver caixa).

Curiosidades
Existem outros casos de heróis de BD portadores de deficiência; eis alguns exemplos:
- Professor Xavier (1963)
Líder e mentor dos X-Men por inspiração de Stan Lee e Jack Kirby, defende a convivência entre humanos e mutantes e vê a sua paralisia motora compensada pelo poder telepático que possui.
- Demolidor (1964)
Criado por Stan Lee e Bill Everett, Matt Murdock, agora um advogado famoso, cegou num acidente com um camião de produtos químicos que desenvolveu os seus outros sentidos, com os quais combate o crime, sob o uniforme do Demolidor.
- Silêncio (1979)
Romance gráfico que narra, com contornos fantásticos, o amor entre o atrasado mudo e a feiticeira da aldeia, amados e temidos por todos. E é um libelo acusatório contra os que usam a violência como arma do ódio contra a diferença.
- L'Ascension du Haut Mal (1996)
Relato autobiográfico em que David B. conta como a epilepsia do irmão, o levou a refugiar-se nos sonhos e no desenho, face à incompreensão dos pais, obcecados pela procura de uma cura.
- Bouncer (2001)
Protagonizado por um herói maneta, é um western amoral e violento, onde a justiça e a honra raramente têm lugar, criado por Jodorowsky e Boucq.
- Dorinha e Luca (2004)
Uma cega e um deficiente motor que "são apresentadas de uma forma positiva, mostrando o que sabem fazer de melhor. Existem na vida real e também na Turma da Mónica, que a retrata", afirmou Maurício de Sousa.
(Versão revista e actualizada do texto publicado no Jornal de Notícias de 17 de Dezembro de 2006)

13 de outubro de 2009

Fora das Livrarias - Fernando Lopes-Graça, Andamentos de uma vida

Ricardo Cabrita (argumento e desenho)
Câmara Municipal de Tomar (Dezembro de 2008)
212 x 305 mm, 44 p., cor, brochado com badanas


Num mercado pequeno e com diversas outras limitações, alguns autores encontram junto das autarquias guarida para a publicação das suas obras. Quase sempre, traçando aos quadradinhos a História – as histórias – das respectivas localidades, com as potencialidades, características e limitações de todos bem conhecidas.
Ricardo Cabrita, com este álbum, é mais um exemplo, contando de forma sóbria (um)a biografia do maestro, compositor e musicólogo Fernando Lopes-Graça, a propósito dos 100 anos do seu nascimento.
Numa banda desenhada construída (propositadamente) a vários andamentos, com grandes variações (e alguns – inevitáveis – desequilíbrios), em termos gráficos e narrativos, para atenuar a sempre necessária carga documental, está especialmente conseguido o segundo deles, “Prisão”, em que um interrogatório da PIDE serve de pretexto para desfiar de forma aligeirada uma série de factos históricos sobre o artista. Ao todo falta, no entanto, uma abordagem mais profunda ao lado humano de Lopes-Graça.
Graficamente, se Cabrita ficou algo preso à imagem do homenageado, apresenta diversas soluções graficamente interessantes, mostra algum à vontade com técnicas diferentes e a (bela) prancha final deixa a vontade de o reencontrar num projecto em que disponha de outra liberdade…

(Versão revista do texto publicado originalmente a 13 de Junho de 2009, na página de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

12 de outubro de 2009

Astérix 50 anos - Como Obélix caiu no caldeirão do druida quando era pequeno

René Goscinny (texto)
Albert Uderzo (desenho)
ASA (Portugal, Junho de 2009 – 2ª edição)
220 x 296 mm, 32 p., cor, cartonado


Enquanto se aguarda pelo álbum de histórias curtas inéditas de Astérix que marcará os 50 anos do seu nascimento (em Outubro próximo), acaba de ser reeditado este título, que regista uma das raras “traições” do pequeno guerreiro gaulês à banda desenhada. Lançado pela primeira vez em português no início da década de 90 e há muito esgotado, este texto ilustrado data de 1965 – dava Astérix os primeiros indícios de que poderia ser o enorme sucesso que hoje se conhece -, e foi publicado pela primeira vez na revista “Pilote”, num número dedicado ao período galo-romano.
Na sua origem, está a resposta a uma pergunta que, certamente, muitos fizeram ao longo dos tempos: como caiu Obélix no caldeirão do druida quando era pequeno, conseguindo assim a força sobre-humana que o distingue? A resposta é dada com o (reconhecido) humor contagiante e irresistível de Goscinny, num texto em que (já) demonstra algumas das características que o distinguiram: o recurso à repetição de situações (a alusão ao javali assado) ao longo da obra com um efeito cómico crescente, gags imaginativos e bem conseguidos (como a bem-humorada aritmética gaulesa), ou a criação de cumplicidades com o leitor através de referências ao imaginário da série (o medo que o céu lhes caia em cima da cabeça ou a aversão aos romanos). E em que é revelado que Astérix e Obélix, companheiros desde sempre, nasceram no mesmo dia.
E, acima de tudo, com muita ternura, que Uderzo, já um excelente desenhador, consegue transmitir e fazer-nos visualizar através das belas aguarelas que ilustram o texto e nos revelam os heróis de todos conhecidos como crianças pequenas, rechonchudas e traquinas.

(Versão revista do texto publicado originalmente a 15 de Agosto de 2009, na página de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

Para lá da BD - Homem-Aranha salva Barack Obama

Homem-Aranha #87
Vários autores
Panini Comics (Brasil, Março de 2009)
172 x 260 mm, 100 p., cor, revista mensal

Por vezes, uma obra - romance, filme, banda desenhada… - vale/desperta a curiosidade, não pela sua qualidade intrínseca enquanto obra, mas por focar um tema da actualidade ou que extrapola o seu âmbito habitual.
É o que acontece com a revista “Homem-Aranha #87“, já distribuída nos quiosques portugueses, que traz a banda desenhada em que Barack Obama encontra o Homem-Aranha, que foi alvo de grande atenção mediática aquando da sua publicação original nos Estados Unidos, em Janeiro deste ano.
Com apenas cinco páginas, escritas por Zeb Wells e desenhadas por Todd Nauck e Frank D’Armata, a acção da história decorre em Washington, minutos antes da tomada de posse do Presidente, quando surgem em cena dois Obama, ambos reclamando ser o legítimo, sendo necessária a intervenção do Homem-Aranha que descobre que um deles é o vilão Camaleão, prendendo-o e permitindo que a cerimónia decorra sem problemas.
A capa desta edição brasileira, protagonizada pelo Presidente norte-americano, é a que foi mais disputada nos EUA, onde esta banda desenhada valeu à revista “The Amazing Spider-Man #583”, quatro reimpressões, sempre com capas diferentes, sendo o comic mais vendido dos últimos anos e um dos que mais se rentabilizou em relação ao preço de capa.

9 de outubro de 2009

BD para Ver - Esgar Acelerado na Mundo Fantasma

É inaugurada amanhã, sábado, 10 de Outubro, às 17h, na galeria Mundo Fantasma, situada na livraria especializada em banda desenhada com o mesmo nome, no Centro Comercial Brasília, no Porto, uma exposição de Esgar Acelerado.
Ilustrador, com ligações à banda desenhada, onde assinou, entre outros, os argumentos de “Superfuzz”, página semanal publicada no (então) semanário “Blitz”, e à edição musical alternativa, através da sua editora LowFly Records, Esgar Acelerado com esta exposição demonstra sem margens para dúvidas que há pessoas que não sabem desenhar.A mostra, que pode ser visitada até 4 de Novembro, é constituída por vinte e cinco giclées (impressões digitais de alta qualidade), em edições limitadas de cinco exemplares, assinados pelo autor e disponíveis para venda.

Lançamento - BRK na Central Comics

O álbum BRK, vai ser apresentado amanhã, sábado, 10 de Outubro, às 16h30, na livraria especializada em banda desenhada Central Comics (Rua do Bonjardim, 505, no Porto), com a presença dos autores, Filipe Pina (argumento) e Filipe Andrade (desenho), para uma sessão de autógrafos.
Neste dia, excepcionalmente, a Central Comics irá beneficiar todos os seus clientes registados com 10% de desconto em qualquer produto (excepto material em saldos e reservas).

Sugestão de leitura: Ferd’nand retorna

Mik (argumento e desenho)
Libri Impressi (Portugal, Setembro de 2008)
230 x 205 mm, 120 p., pb, brochado com badanas

Já está impresso e disponível no editor, o segundo volume de Ferd’nand, com “todas as 313 tiras diárias de 1938, o segundo ano da universal série pantomímica de Mik”, refere Manuel Caldas, que acrescenta que é “a primeira vez em todo o mundo que tal material se recolhe em livro na sua integralidade”.
As Leituras do Pedro aconselham vivamente o livro – quem não conhecer Ferd’nand pode descobrir mais aqui - e, uma vez que “ainda não se sabe a data em que estes livros serão distribuídos pelas livrarias”, recomendam que o encomendem directamente ao editor (mcaldas59@sapo.pt), por duas razões: primeira, vão poder lê-lo mais cedo; segunda, ficando com quem edita a verba normalmente deglutida pela distribuição, menos exemplares será necessário vender para conseguir editar novo volume!

8 de outubro de 2009

Astérix 50 anos - O Aniversário de Astérix e Obélix, O Livro de Ouro

Uderzo divulgou hoje, em França, durante uma conferência de imprensa, a capa do novo álbum de Astérix que chegará simultaneamente às livrarias de 15 países no próximo dia 22.
Trata-se do 34º álbum das aventuras do pequeno guerreiro gaulês, tem por título "O Aniversário de Astérix e Obélix - O Livro de Ouro", e ao longo das suas 56 páginas compila diversas histórias curtas, todas inéditas assinadas por Uderzo, ao lngo das quais podemos rencontrar cerca de 300 personagens, entre as quais César, Cleópatra ou o capitão dos piratas, que Asterix e Obélix cruzaram ao longo destes 50 anos, convidadas pelo chefe Matasétix para trazerem um presente para assinalar a efeméride.
A sua tiragem mundial será de 3 500 000 exemplares, dos quais 1,1 milhões em França. Em Portugal a tiragem, mais modesta, será de 60 mil exemplares, mesmo assim mais dez dos que os inicialmente previstos, dada a grande procura que o título já tem.

7 de outubro de 2009

Fora das Livrarias – Salúquia

A Lenda de Moura em Banda Desenhada
Vários autores
Câmara Municipal de Moura (Portugal, Junho de 2009)
208 x 295 mm, 76 p., cor, brochado com badanas

A história recente da banda desenhada portuguesa tem sido pródiga em álbuns patrocinados por municípios ou entidades oficiais, maioritariamente de temática histórica. E quase sempre, diga-se, condenados a um reconhecimento limitado e a um anonimato alargado, pois não têm distribuição comercial, sendo apenas divulgados localmente, em escolas e bibliotecas. Ou pouco mais.
Não fugindo aos aspectos referidos, “Salúquia” não deixa de marcar alguma diferença, pois o recontar da Lenda de Moura foi entregue a 15 autores, o que permite abordagens – temáticas e estilísticas – completamente díspares. Em abono da verdade, a maior parte deles limita-se à história em si, num estilo clássico, sem grandes surpresas nem variações, fiéis a uma linha e área de especialização (a BD histórica), há muitos anos adoptada. Mesmo assim, neste grupo maioritário, veja-se a diferença que faz, em termos narrativos (ou faria se o final não fosse já conhecido…), a opção de Pedro Massano de não contar de imediato o resultado do combate intermédio entre portugueses e mouros…
Mais interessantes, pela corrupção da narrativa base, pela multiplicidade de caminhos que proporcionam, pela transposição do tema para outras épocas, pela oportunidade de questionar problemas actuais ou, simplesmente, pelo tom divertido, são as histórias de Artur Correia, Jorge Magalhães com Augusto Trigo e Catherine Labey, Luís Afonso, Zé Manel (o mais inspirado de todos) e José Abrantes.
Serve assim, também, este livro, em que curiosamente prevalece (quase sempre) a ideia (pouco vulgar) de que os mouros seriam os “bons” e os cristãos os “maus”, para mostrar, para o bem e para o mal, alguns dos caminhos trilhados ou (potencialmente) a trilhar pela BD portuguesa histórica.

(Versão revista do texto publicado originalmente a 18 de Julho de 2009, na página de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)
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