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31/12/2009

2009, um balanço

Em ano de crise (profunda?) a BD também não lhe escapou; fica a dúvida se a culpa é da conjuntura ou do agravamento de factores já conhecidos … Indiscutível é a redução do número de títulos editados, que afectou até as recolhas de tiras de imprensa, o que parece mostrar que há mesmo pouca vontade de rir. O que é pena porque Pérolas a Porcos (Bizâncio), Zits (Gradiva) ou Ferdnand (Libri Impressi), pela qualidade do seu humor, justificam leitura atenta, até como paliativo para as dificuldades quotidianas.

Para a ASA, que, com todos os defeitos e qualidades, é na realidade a única editora com edição regular ao longo do ano, esta realidade poderá ter sido (falsamente) compensada pelos dois best-sellers editados - O Livro de Ouro de Astérix e Obélix e A Maldição dos trinta denários, o novo Blake e Mortimer - a par de títulos seguros de autores consagrados como Quatro?, de Bilal, A Teoria do Grão de Areia I, de Schuiten e Peeters ou os Passageiros do Vento #6 – A menina de Bois-Cayman, de Bourgeon e da continuação da aposta na parceira com o jornal Público. A estes títulos mais populares, há que acrescentar, como maior atrevimento editorial, o curioso As aventuras de Juan sem Terra, de Isusi, e como opção a repetir, pela capacidade de chamar para a BD outros leitores, Câncer Vixen, de Marisa Acocella Marchetto.
Curiosamente, se contasse só o final de 2009, o panorama seria bem diferente pois O gato do Simon (Objectiva), de S. Tofeld, Tarzan dos Macacos, de Foster, o imperdível Krazy + Ignatz + Pupp - Uma Kolecção de Pranchas a Kores Kompletamente Restauradas (os dois últimos fruto do notável trabalho de restauro de obras-primas dos quadradinhos por Manuel Caldas na Libri Impressi, que importa conhecer), a magnífica edição de Marvels (BDMania), que narra o aparecimento dos primeiros super-heróis, visto pelos olhos de um fotógrafo, e o quinto volume de Peanuts – Obra completa – 1959/1960 (Afrontamento), são obras obrigatórios em qualquer (boa) biblioteca. E não só de banda desenhada.
Constata-se também que 2009 ainda não foi o ano do manga em português, limitado a meia dúzia de títulos (secundários) e ao aparecimento nas bancas de títulos pouco significativos de origem brasileira, obrigando os (muitos) fãs do género a esperar por melhores dias. Que alguns rumores indicam que poderão ser já em 2010.
A edição de criadores lusos fica marcada pela reedição do clássico Eternus 9 (Gradiva), de Victor Mesquita, por BRK (ASA), das revelações Filipe Pina e Filipe Andrade, uma feliz conjugação de influências e estilos numa BD jovem e actual, ambientada no Porto e em Lisboa, e pela magnifica adaptação do Romance da Raposa (Bertrand), de Aquilino, por Artur Correia. Realce ainda para o dinamismo da edição dita independente, que vai (re)descobrindo e publicando algumas das propostas mais estimulantes da produção nacional – Mocifão (da El Pep), Mucha (Kingpin Books), Venham +5 (Bedeteca de Beja), O Filme da Minha Vida (AoNorte) – e para a multiplicação de edições patrocinadas por autarquias, que na maior parte dos casos, infelizmente, não chegam às livrarias, onde se destacam Salúquia – A lenda de Moura em BD ou O crime de Arronches.
Finalmente, uma referência para as edições de banca ou quiosque, quase todas provenientes do Brasil, através da Panini (Marvel, DC Comics, Turma da Mónica) ou Mythos (Bonelli), que apesar de alguns problemas de distribuição e visibilidade parece ter finalmente entrado em velocidade de cruzeiro.

(Versão revista e aumentada do artigo publicado originalmente a 26 de Dezembro de 2009, na secção de Livros do suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

2 comentários:

  1. A diversidade editorial em Portugal é exígua e, muitas vezes, quando uma BD é publicada, essa publicação é errática. Ou seja, quantas vezes se inicia uma saga que depois não é completada? É uma pena, mas pelo menos a mim, cria uma sensação de desconfiança. Já me aconteceu apenas comprar coisas em português em jeito de apoio e pouco mais.

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  2. Caro Sam,
    Obrigado pela visita a As Leituras do Pedro! Espero que tenha ficado com vontade de voltar.
    É verdade que o mercado pequeno e algumas limitações (como a necessidade actual de editar livros em co-impressão com outros países) tem deixado muitas colecções a meio, mas isto também se deve a alguma falta de respeito para com os leitores/compradores... Que, já escaldados, muitas vezes optam pela edição em língua estrangeira, criando-se um ciclo vicioso difícil de ultrapassar…
    Abraço!

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