Este blog está correctamente escrito em português, à revelia do triste acordo ortográfico em vigor.

07/09/2009

11/9 - Homem-Aranha

The Amazing Spider Man #36
Marvel Comics (EUA, Dezembro 2001)
168 x 250 mm, 32 p., cor, mensal

Peter Parker Homem-Aranha #27
Devir (Portugal, Abril de 2002)
168 x 255 (mm), 48 p., cor, mensal
J. Michael Straczynski (argumento)
John Romita Jr. (desenho)
Scott Hanna (arte-final)
Dan Kemp (cor)



"Há coisas que estão para além das palavras. Para além da compreensão. Para além do perdão." Se pedir ao leitor para associar estas palavras a um acontecimento recente, talvez ele não tenha grande dificuldade em ligá-las ao que se passou em Nova Iorque, no passado dia 11 de Setembro, tal o impacto dos acontecimentos em causa na memória colectiva mundial.
Mas se pedir ao leitor para identificar quem as proferiu, talvez a tarefa seja mais difícil e, entre as muitas hipóteses que seriam adiantadas, duvido que alguma fosse a correcta. Até porque a minha pergunta era enganosa, já que aquelas palavras não saíram da boca de nenhum político, dirigente mundial ou protagonista da tragédia. Foram proferidas, isso sim, por uma personagem de ficção, mais concretamente de histórias aos quadradinhos, no caso o Homem-Aranha, cujas aventuras são seguidas mensalmente por milhares de leitores um pouco por todo o mundo.
Por isso, imaginemos a surpresa dos leitores quando, pouco menos de dois meses depois, a 14 de Novembro, abriam o nº 36 da revista "The Amazing Spider Man" e encontravam uma página a negro, com uma legenda que dizia: "Interrompemos a nossa emissão para transmitir uma notícia de última hora.". Voltada a página, encontravam o seu super-herói favorito, no topo de um edifício, com as mãos na cabeça, perante o espaço antes ocupado pelas torres gémeas do World Trade Center, agora vazio, coberto apenas por gigantescas nuvens de poeira originadas pela queda dos edifícios. E a imagem pontuada pelas linhas que abrem este artigo.
Para isto ser possível, num tão curto espaço de tempo, foi preciso uma formidável corrida contra o relógio.
Primeiro, de J. Michael Straczynski, responsável por um argumento, que se afasta completamente dos padrões das tradicionais aventuras de super-heróis, embora eles lá estejam, de forma anónima, a tentar remover uma viga, a afastar os escombros ou a chorar perante as ruínas, ainda que sejam os piores vilões que os heróis já enfrentaram, "porque até os mais reles, por muito marcados que estejam, ainda são humanos. Ainda sentem. Ainda choram a morte fortuita dos inocentes". É este aliás o tom geral de um relato que é uma reflexão sentida, emocional (e emocionada), sobre os acontecimentos e as tentativas de resgate das vítimas, em que somos guiados por um Homem-Aranha habitualmente vitorioso e gabarolas, agora derrotado, pela dimensão do drama, e impotente face às suas consequências. Por isso na página final, os (ex-)heróis são remetidos para a obscuridade das últimas filas de uma foto de conjunto em que o destaque vai para os (agora) heróis: os bombeiros, os polícias, os soldados, os marinheiros, os anónimos que se transfiguraram na luta contra o tempo para tentar salvar o maior número possível, "unidos na dor, na determinação. Unidos na recuperação. Unidos na reconstrução".
Corrida contra o relógio, depois, de John Romita Jr., um dos mais apreciados autores de comics norte-americanos, apesar da sua veterania, que desenhou 24 páginas em tempo recorde, sem abdicar dos padrões de qualidade a que habituou os seus fãs, e de Scott Hanna, responsável pela arte-final das pranchas.
Corrida contra o relógio, finalmente, da Marvel, que conseguiu alterar o plano editorial estabelecido e encaixar esta história na sequência normal da revista, de tal forma que a tiragem deste número foi a habitual, esgotando rapidamente e transformando-o num objecto ambicionado pelos coleccionadores.
Agora, chega a edição portuguesa, pela mão da Devir, integrada na linha habitual da editora, com o nº 27 da revista "Peter Parker Homem-Aranha", já distribuída em quiosques e lojas especializadas. Este número, muito especial pela história que inclui, é especial também porque marca o fim desta revista, que será em breve substituída por uma outra, intitulada simplesmente "Homem-Aranha", que incluirá as histórias mais recentes do herói criadas pela equipa responsável por este episódio especial e histórico.

(Versão revista e actualizada do texto publicado originalmente no Jornal de Notícias de 11 de Abril de 2002)


2 comentários:

  1. Grande comic!
    tenho a felicidade de ter na minha colecção a raríssima versão americana.

    Abraço

    Nuno Mata

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  2. Olá Nuno!
    Obrigado pela visita.
    Eu também tenho um The Amazing Spider Man #36; tenho é dúvidas que seja assim tão raro, já que foram impressos tantos milhares... De qualquer forma, um exemplar em excelente estado já vale 75 dólares, o que é muito para uma revista com apenas 8 anos, com preço de capa de 2,99 dólares.
    Abraço

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