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07/06/2009

O principezinho

O principezinho, segundo a obra de Antoine de Saint-Exupery
Joann Sfar (texto e desenhos)
Editorial Presença (Portugal, Dezembro 2008)
233 x 318 mm, 112 páginas, cor, capa cartonada


Resumo

Devido a um problema mecânico um piloto aterra de emergência no deserto, onde, num sonho (?)/alucinação (?) se encontra consigo próprio enquanto criança sonhadora e de imaginação fértil.

Desenvolvimento
Adaptar qualquer obra para um meio narrativo diferente é um risco porque, para ser conseguida, a adaptação terá sempre que ter vida própria no novo meio, respeitando as suas regras e as suas especificidades, sem que, ao mesmo tempo, subverta ou desfigure o espírito da obra original. De forma mais clara, uma boa adaptação implica uma grande dose de (re)criação. Claro que mais acrescido será aquele risco, quando se está em presença de um título como “O principezinho”, de Antoine de Saint-Exupery, tão só o livro francês mais traduzido de sempre e uma obra de referência incontornável da literatura infantil (e não só…).
A sua (re)criação por Joann Sfar, um dos mais marcantes autores da geração que, nos anos 90, através da editora L’Association, transfigurou o panorama franco-belga – e europeu, e mundial – da banda desenhada, é uma aposta alta, muito alta) ganha, por razões que vamos tentar perceber.
Desde logo porque, apesar de partir do texto original, Sfar, fez-lhe uma releitura à luz das características que têm distinguido a sua bibliografia, dando maior relevância à história que pretende contar, com especial sensibilidade para pequenos detalhes, imprimindo ao relato um toque de humor e libertando as suas emoções, servindo o desenho como veículo para essa narração, sem que isto signifique menor cuidado com ele. A opção por uma estética diferente das aguarelas de Saint-Exupery, mas próxima delas, torna quase imediata a associação ao original mas também dá a Sfar toda a liberdade para desenvolver o seu traço rápido, nervoso, por vezes próximo do esboço, mas mais detalhado do que seria de esperar, dinâmico e bem equilibrado.
Neste caso, dada a importância do texto original (de que Sfar guardou grande proximidade), uma vez que se trata de um relato onírico, com muito de abstracto e filosófico, cujos limites (quase ilimitados…) são os da imaginação e do subconsciente, em oposição à seriedade da vida adulta, o desenhador optou por ancorar a parte escrita ao desenho, obrigando-os a caminhar juntos (como tem que ser em banda desenhada, para poder ser classificada como tal), conseguindo em diversos momentos substitui-lo por sequências mudas, nas quais ganha realce a expressividade do seu traço, ao nível das feições humanas, com especial destaque para os olhos do protagonista – grandes, imensos, como a sua vontade de conhecer os mundos que vai percorrendo -, com os quais partilha connosco as mais diversas emoções desta autêntica ode à vida e às pequenas coisas, ao direito a sonhar e a viver os sonhos, animando-nos a viver melhor, “porque a tristeza é um risco quando nos deixamos cativar”.

A reter
- A fidelidade ao original, na nova roupagem aos quadradinhos.
- A forma como a narrativa flui apesar da planificação rígida.

Menos conseguido
- A ausência de alguns capítulos existentes na obra original.

Curiosidade
- A revista Lire escolheu “Le petit prince” como a melhor BD editado em França em 2008, entre mais de 4 mil títulos…
(Versão revista e aumentada do texto publicado no suplemento In’ da revista NS, distribuída aos sábados com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias, de 24 de Janeiro de 2009)

1 comentário:

  1. Finalmente uma BD que já li! (Não que esteja "reclamando" deste novo universo que me trazes, amigo Pedro!) Sem dúvida seu texto captou toda a essência deste excelente artista (já leu dele "O Gato do Rabino?" - esse nome que foi batizado aqui no Brasil!)... Bem lembrado das aguarelas feitas pelo próprio autor no livro baseado!

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